Primeiramente permitam-me justificar a brincadeira que fiz no título do post. É que depois do passeio pelo rio Piraqueaçú, que fez parte do Pocando no ES, evento que reuniu blogueiros de viagem do Espírito Santo e de outros estados, fomos direto para a aldeia indígena Piraqueaçú, dos Guaraní. Trata-se de uma aldeia cenográfica, criada para a gravação de um filme, e que hoje é utilizada pelos índios para receber turistas.

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Ocas da aldeia indígena

Nela também foi gravada uma novela da Globo. A aldeia remete às antigas tradições indígenas, como a moradia em ocas. Hoje, obviamente, passados séculos da invasão europeia no Brasil, os índios não vivem mais em aldeias daquele estilo. Há uma outra aldeia, há cerca de 30 minutos dali, onde os guaraní de fato moram.

Assim que desembarcamos da escuna fomos recebidos pelo cacique Pedro. Os indígenas tem um nome em português, no qual são registrados, e outro em guaraní, colocado pelo pajé, e pelo qual chamam uns aos outros. Segundo o cacique, uma das reivindicações deles é que possam registrar as crianças em guaraní. Acho justo! Uma das coisas que achei interessante é que na aldeia tem alguns índios que não falam português ou não falam muito bem a nossa língua.

Turismo na aldeia

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Cacique Pedro

De acordo com o cacique, a tribo deles tem 680 índios, mas na aldeia cenográfica trabalham 80. Ela tem oito anos e há cinco eles recebem turistas. Porém, a atividade turística esbarra no descaso do poder público. Eles reivindicam água encanada e banheiro para os visitantes e índios que trabalham na aldeia, mas não obtém resposta.

Mesmo diante das dificuldades os índios resistem. Alguns deles, como o Rodrigo, filho do cacique, estudaram turismo em estados como Rio de Janeiro e São Paulo para alavancar o trabalho na aldeia. Para manter a aldeia aberta para visitação, os indígenas desenvolvem várias atividades de intercâmbio cultural com os visitantes. Agora vou descrever algumas delas.

Pintura de jenipapo

Ao visitar o local, os turistas podem fazer em seus corpos a pintura de jenipapo. Mas é preciso cautela na hora de escolher o local do corpo onde fazê-la, pois ela demora cerca de um mês para sair. De acordo com o cacique, a tinta é feita com jenipapo verde. As pinturas têm vários significados. Algumas são para guerra, outras para casamento, etc.

Trilhas

Na aldeia é possível fazer algumas trilhas. Uma delas é a do cipó, na qual, segundo Rodrigo, encontra-se o Cipó d’água, que garante a sobrevivência dos guaraní quando se perdem na mata. Há os cipós de água margosa, doce e normal. Essa última, de acordo com Rodrigo, é até melhor que a água mineral. As trilhas também contam com diversas ervas medicinais.

Almoço

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Comida indígena servida no almoço

Quem visita a aldeia também prova um delicioso almoço. Quando fui o cardápio tinha macarrão, arroz, feijão, salada de tomate e carne de boi. Vocês devem estar pensando: “nada de diferente!”. Aí que vocês se enganam. Comemos uma sopa, cujo nome indígena não sei escrever (Desculpem-me!) e que estava deliciosa. Ela é feita a base de trigo, cheiro verde e frango. Estava tão boa que até repeti!

Artesanato

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Artesanato indígena a venda para os visitantes

Na aldeia também tem espaço para venda de artesanato. Tem de tudo: bijuterias, acessório para cabelo, peças de decoração, artefatos culinários. Cada um mais lindo que o outro. Vale a pena comprar!

Danças

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Os indígenas também fizeram apresentações de canto e dança. Antes da apresentação, a mãe do cacique, cujo nome em português é Marilza, desejou a proteção de Deus para todos e que pudéssemos sair dali falando para as pessoas sobre a verdadeira realidade dos guarani.

Os cantos e danças apresentados, segundo o cacique, agradecem ao sol, por iluminar a Terra, saúdam as matas e lamentam a degradação ambiental. Ou seja, falam da relação dos índios com a terra, com a natureza.

Preservação ambiental

Qualquer capixaba que tenha o mínimo de informação e tenha estudado história do Espírito Santo sabe que nas décadas de 60, 70 e 80 foram instalados os grandes empreendimentos industriais no Espírito Santo e os problemas sociais oriundos disso. A Aracruz Celulose, hoje Fibria, é um deles. Destaco isso porque muito mais interessante do que ler artigos, se debruçar diante dos livros e estudar sobre o assunto, como faço para minha dissertação de mestrado, é ouvir o relato de alguém que vive mais fortemente os impactos disso.

Segundo Rodrigo, além da Fibria, há outros 36 empreendimentos poluentes na região de Aracruz. Uma das consequências dessa realidade foi a intensa agressão da natureza, com a morte de várias nascentes. Novos empreendimentos, como a Jurong, chegaram à cidade mais recentemente. Rodrigo relata que ela foi instalada dentro de uma terra onde era um cemitério indígena e que materiais utilizados pela empresa, como chumbo, para a construção de navios, tem poluído o rio Piraqueaçú.

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O rio Piraqueaçú está sendo poluído pelos grandes empreendimentos instalados na região

Diante disso, a aldeia tem um papel importante que é de preservação ambiental. Rodrigo relata que eles protegem o rio evitando, por exemplo, a pesca predatória. “A nossa casa é a natureza, é a mata”, afirma. De acordo com ele, receber os turistas na aldeia é uma forma de fazer com que as pessoas entendam a cultura indígena, as atividades que eles fazem em prol da natureza, a luta deles contra a degradação causada pelos grandes empreendimentos e de mostrar a necessidade da preservação ambiental.

Mais informações

Para entrar na aldeia é preciso pagar R$ 20,00. O valor não inclui o almoço, que deve ser negociado a parte. A visitação é diária e pode ser agendada pelo número  (27) 996062754.

Fotos: Elaine Dal Gobbo

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